Sorte a minha


Sorte a minha

Eu tive a sorte de cruzar com pouquíssimas pessoas de mal com a vida. Mas as poucas que eu encontrei marcaram muito...


Como diz minha terapeuta, eu sempre vivi num ambiente cercado de amor. Tanto pela minha família quanto pelos meus amigos - ainda bem! E encontrar pessoas que não tem o amor e o respeito como valores para lidar com outros seres humanos sempre foi um pouco chocante para mim.


A primeira vez que isso aconteceu foi com o meu primeiro chefe na primeira empresa que eu trabalhei. Eu era estagiária e aquele era o primeiro ano que passava a vigorar no Brasil a lei que estagiários só poderiam trabalhar de 4 à 6 horas por dia. E minha faculdade só liberava 4. Fui contratada mesmo assim para fazer o trabalho que antiga estagiária fazia em 8.


Eu tinha que trabalhar das 14h às 18h. Mas a realidade é que eu trabalhava das 13h30 às 20h, 21h, muitas vezes até meia noite. E mesmo assim, chegando mais cedo, eu era obrigada a ouvir quase todos os dias do meu chefe: "Boa noite, Larissa.”, num tom de ironia e descaso gigantescos.


Por essas e outras eu tinha medo dele. Tinha medo de pedir para ele aprovar as coisas que eu fazia, tinha medo de tirar dúvidas, tinha medo de tudo. A sorte é que meu time era incrível e todos eles me ajudaram demais! Um dia eu tive que falar com ele para ele aprovar uma arte da campanha nova e eu passei algumas horas tomando coragem para isso. Eu disse algumas horas!


"Quando for 16:30 eu vou!" - eu pesava.


O relógio marcava 16:29.


"Tá. 16:40!"


E isso seguiu por horas.


Até que eu tomei coragem, com a ajuda da treinee da minha área, e fui falar com ele.


"Oi Fulano. Eu preciso da sua aprovação para a arte de endomarketing." - eu disse quase fazendo xixi nas calças de medo.


"Larissa, essa é minha prioridade 417!" - foi o que ele respondeu delicadamente sem olhar na minha cara. E me lembro tão bem desse dia que o número 417 nunca mais saiu da minha cabeça. Hoje em dia isso virou motivo de piada interna minha comigo mesma.


Mas como o universo é muito bom comigo, eu tive a sorte de ter ele como chefe por 3 meses. Ele foi substituído pela chefe mais fofa do planeta. Ela não era a que tinha mais conhecimento, nem a mais segura, mas ela era a mais parceira, a que colocava a mão na massa com a gente e se a gente fizesse alguma bobagem - como eu fiz algumas vezes - ela tomava a responsabilidade para ela. Tudo o que eu acredito que um verdadeiro chefe - ou melhor, líder - deveria fazer.


A segunda, e última, pessoa eu conheci no restaurante, no dia do meu teste. Assim como eu, ela é garçonete. Aquele dia ela estava completamente mal humorada porque ela tinha chegado atrasada. Só depois eu fui descobrir que o mal humor é uma das personalidades dela.


No restaurante tem um elevador que manda as comidas da cozinha para o restaurante. Quando o elevador chega ele faz um barulho quase que impossível de escutar. E claro que na primeira vez que ele chegou, e eu estava do lado, eu não ouvi! Com toda a delicadeza de um elefante ela disse para eu prestar atenção no som do elevador. E eu, mais calejada agora, só fiz um sim com a cabeça e dei um sorriso de canto de boca achando divertido o quanto ela tava estressada com algo tão pequeno.


O elevador chegou de novo. E eu não ouvi. E a reação dela me assustou.


"Se você quer mesmo trabalhar aqui você precisa ouvir o elevador!"


Não tinha meia hora que eu estava lá. E eu já tinha que estar afiada.


Semana passada estava trabalhando com ela de novo e, aparentemente, ela estava bem humorada. Me contou algumas histórias engraçadas e estava até sorrindo! Mas a minha alegria durou pouco.


Eu estava limpando uma mesa e ela foi servir café para outra. Nesse momento, dois homens entraram no restaurante e ficaram um pouco perdidos se podiam sentar ou não. Eu não vi. Eu estava limpando a mesa, lembra? E mais uma vez ela atacou.


"Você é cega?"


Eu, na minha bondade toda, achei que fosse uma piada e que ela ia fazer uma brincadeira. Dei risada e perguntei por que.


"Eu não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo. Se eu tô servindo as mesas você precisa recepcionar as..."


E depois disso eu não ouvi mais. Porque eu sai andando para cuidar das coisas que eram importantes. E aquilo não era.


Mesmo calejada ela ainda me tira do sério as vezes. Porque não entra na minha cabeça como podem existir pessoas assim. Eu não sei o que acontece dentro da casa delas e nem os problemas que elas tem. Mas deve ter algo muito sério para justificar tamanha falta de respeito com as outras pessoas. Eu consigo entender que nós temos dias ruins, mas nos contentarmos com uma vida ruim e descontar isso nas outras pessoas não é justo.


Pensei muito se eu deveria postar um texto tão “pesado”. Mas a vida não é feita só de meninos de barracas de morangos.


Pronto, falei!

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